segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ser aceito

(Artur da Távola)
Ser aceito não é receber a concordância.
É receber até a discordância, mas dentro de um princípio indefinível e fluídico de acolhimento prévio e gratuito do que se é como pessoa.
Ser aceito é realizar a plenitude do sentido do verbo latino "accipio": - receber, tomar para si, acolher, perceber, ouvir, compreender, interpretar, sofrer, experimentar, aceitar... 
Ser aceito é ser percebido antes mesmo de ser entendido.
E ser acolhido antes mesmo de ser querido.
E ser recebido antes mesmo de ser ouvido.
É ser compreendido antes mesmo de ser conhecido.
É, pois, um estado de compreensão prévia, que abre caminho para uma posterior concordância ou discordância, sem perda do respeito fundamental por nossa maneira de ser. 
Quer fazer alguém feliz? Aceite-a.
E depois discorde à vontade. 
Ser aceito implica mecanismos mais sutis e de longo alcance do que apenas os racionais.
Implica intuição, compreensão milagrosa, conhecimento efetivo e afetivo do universo interior, cuidado com as cicatrizes e nervos expostos.
Ser aceito revela, renova e faz crescer a nossa melhor dimensão.
Ser aceito é rememorar um momento de medo que foi aplacado, um olhar de amor e carência que encontrou resposta e afago, uma perda de si mesmo atendida no instante em que se deu, um exercício de bondade que não encontrou reprimida, julgamento, cobrança, medo, desconfiança ou agressão. 
Ser aceito é não ser preciso explicar.
É não ser preciso definir.
É não ser preciso ter para dar.
É não ser preciso agradar.
É não ser preciso embelezar, dourar a pílula, contabilizar o afeto ou ficar bem com os outros. 
Ser aceito é o milagroso mistério do afeto dos que não cobram retorno ou gratidão.

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