terça-feira, 6 de outubro de 2009

Texto do Ziraldo sobre Saúde Bucal - Muito interessante!



Outra vez falando de um dos mais graves problemas de saúde pública no Brasil
       Ziraldo

Vocês se lembram da boca do Bandido da Luz Vermelha, quando, trinta anos depois de viver sob a responsabilidade do Estado, ele saiu da prisão? Ele era responsabilidade do Estado – repito – e provou que nem de um brasileiro só o Estado tem condições de cuidar dos dentes. Sua boca tinha virado uma cloaca.
Podemos, com muito esforço e vontade política, salvar as bocas do futuro, ministrar às nossas crianças uma educação dentária, criar hábitos de higiene, ensiná-las a limpar e lavar os dentes (e não escová-los, como sempre se ensinou). Mas isto é outra história.

Não estamos falando aqui de prevenção nem de futuro. Estamos falando de um problema imediato: salvar a boca, a saúde e a vida de mais da metade da população brasileira. Uma gente que vive perrengue, cheia de macacoas, num desande de fazer gosto, numa impossibilidade, numa indisposição, cheia de mazelas, de achaques, carregação ou trabuzana.

Esse povo não pode viver assim, jamais iremos conseguir sentá-lo numa cadeira de dentista, durante semanas de tratamento, com material cirúrgico e dentário a preços inacessíveis.

Temos, porém, que fazer alguma coisa, não podemos deixar o brasileiro do bumba-meu-boi, das redes de pesca, das cavalhadas, das danças e folguedos, dos canaviais, das colheitas e das romarias, matar a gente de vergonha diante do mundo, quando, fingindo felicidade, sorriem desdentados para os fotógrafos premiados sociais.
Então, pergunto a mim mesmo: há solução? Digo que há. E qual é? E eu respondo: a perereca! A velha mobília, meus filhos, dita mobía, a dentadura, essa mesma, que qualquer protético sabe fazer.



As últimas palavras sobre um dos mais graves problemas de saúde pública no Brasil
  Ziraldo
Descobri isto um dia que vi, na Ilha Grande, no litoral fluminense, um mulato gordinho, vestido todo de branco – até o sapato – com uma pasta preta na mão, descer da barca, vendendo dentaduras. Ele se dizia protético prático. Olhava a boca podre dos pescadores, contava os dentes, recomendava uma vista ao dentista do litoral, pra arrancar o que restava – boticão é barato -, na semana seguinte voltava, media a boca do coitadinho e experimentava a dentadura, tão barata hoje não chegaria a cinqüenta pratas.

Entrevistei um de seus clientes. – Doutor – ele me disse – foi duro no começo, de calo na gengiva, sofri pra dormir, mas agora, doutor, me acostumei. O senhor sabe (e este dado é importante para a minha proposta. N.A.), pobre acostuma com tudo! Aí eu perguntei se a vida dele tinha melhorado. E ele disse: - Ah, sim, acabaram as dores! – De dentes? – eu perguntei. E ele respondeu: - Não. Do corpo inteiro. Sou outro homem. Sabe o que é, doutor, parei de engolir pus! É isto aí!

Proponho a criação do MINAD, Ministério Nacional da Dentadura. Ou MINAP, Mistério Nacional da Perereca.
Estou falando sério, muito sério mesmo! O logotipo seria uma boca sorridente, sem um só dente e o slogan: “Banguela, porém feliz!”.

Sejamos realistas. Pobre acostuma com tudo. Menos com doença, abandono e desamparo.





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